BUSTLE: Porque o autocuidado é uma importante ação feminista

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BUSTLE: Porque o autocuidado é uma importante ação feminista

Mensagem  Willow em Sex Maio 26, 2017 10:03 pm

nota: artigo feminista liberal com alguns problemas

BUSTLE: PORQUE O AUTOCUIDADO É UM IMPORTANTE ATO FEMINISTA
Por JR Thorpe, dez de 2016

Falamos muito sobre o autocuidado na Bustle, particularmente no contexto do gerenciamento da saúde mental, dada a importância de ajudar as pessoas com depressão, ansiedade e outras dificuldades a atravessar a vida cotidiana(1). Mas em um contexto mais amplo, o autocuidado - que, na excelente definição do Dr. Christine Meinecke na Psychology Today seria “escolher comportamentos que equilibram os efeitos dos estressores emocionais e físicos" (e não um mimo ou auto indulgência)(2), - é tanto uma importante prática geral como também uma idéia fundamentalmente feminista(3).

A noção de autocuidado para feministas tem sido discutida já há um bom tempo(4): o blog Everyday Feminism, por exemplo, tem um guia brilhante para ativistas para manterem-se psicologicamente saudáveis e fortes ao lutar a boa luta(5). Mas o autocuidado é mais radical do que parece. Apenas o ato de cuidar de si mesma como mulher no mundo é um movimento contra a misoginia e as expectativas sexistas. A genial escritora e feminista Audre Lord disse certa vez: "Cuidar de mim não é auto-indulgência, é auto-preservação, e isso é um ato de guerra política"(6).

A própria idéia de autocuidado para a mulher viola normas patriarcais da mulher como cuidadora de outros - e da emoção e dor feminina como inválidas, indignas, ou de alguma forma menores. Se você é uma feminista, ter tempo para equilibrar os estressores em sua vida (muitos dos quais são possivelmente misóginos na raiz) com um banho, uma caminhada, ou um bom livro não é “dar um tempo” no ativismo político. É ativismo político. Aqui está o porquê.

AS MULHERES TÊM SIDO HISTORICAMENTE CUIDADORAS, NÃO AUTOCUIDADORAS

Qual é o "propósito" da feminilidade? Essa é uma das questões fundamentais do feminismo - e não é difícil encontrar respostas que, em muitas sociedades e culturas do histórico para o moderno, justifiquem a subserviência da mulher e sua responsabilidade pelos outros.

O antigo estadista grego Demóstenes dizia: "Nós mantemos hetaerae [cortesãs] por prazer, escravas para o nosso cuidado diário e esposas para nos dar filhos legítimos e serem guardiãs de nossas casas"(7). Em outras palavras, mulheres servindo às necessidades e exigências de homens e crianças, sendo suas próprias exigências tratadas como secundárias ou sem importância. Um sistema que foi transformado em doutrina legal (coverture law)(08): a pessoa e os direitos da esposa eram totalmente subordinados ao marido quando a mulher se casava (feme covert em oposição a feme sole), noção que fez parte das leis inglesa e americana durante séculos, e que durou até os anos 1960 em algumas partes dos Estados Unidos.

Estes são apenas dois exemplos de um pensamento bastante disseminado: o de que as mulheres existem para serem naturalmente cuidadoras, ao invés de cuidar de si mesmas. Nas últimas três décadas, desenvolvemos o termo "trabalho emocional" para falar sobre todo o trabalho feito, geralmente pelas mulheres, no cuidado de outras pessoas em circunstâncias não recompensadas economicamente ("atos repetidos, tributários e sub-reconhecidos de desempenho de gênero”, nas palavras de Rose Hackman no Guardian)(9). As mulheres têm sido vistas como quem serve e não como alguém a ser servida(10), e isso pode ser profundamente restritivo de muitas maneiras: cria a expectativa de que elas vão trabalhar em indústrias de "cuidado" mal remuneradas, como a enfermagem e a indústria de serviços(11), e as faz parecer inadequadas para outros campos vistos como “menos emocionais” e independentes, como STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

E no caso de você estar pensando "mas as mulheres são apenas melhores fazendo essas coisas", parece que não é bem assim: estudos descobriram que as expectativas relacionadas aos gêneros afetam profundamente as formas como as crianças são socializadas, particularmente quando se trata de emoção. As mulheres, em outras palavras, são treinadas desde a mais tenra idade para estar mais em contato com as emoções dos outros, enquanto os homens são orientados a suprimir a deles. Em países mais igualitários, o desequilíbrio emocional é menos pronunciado.

Neste contexto, a noção de dizer "estou cuidando de mim mesma agora" é um ato de rebeldia, porque vai contra gerações de condicionamento cultural em que a primeira responsabilidade das mulheres é o cuidado emocional e prático dos outros e que elas devem ser envergonhados como "más" ou "negligentes" se elas tomam tempo para si mesmas, suas carreiras e sua saúde. Fechando a porta do banheiro para um banho? Um ato feminista afinal.

O MOVIMENTO FEMINISTA PRECISA DE LUTADORAS FORTES

A ausência de autocuidado produz pessoas que colocam suas próprias necessidades persistentemente em último lugar, descartando-as, não criam espaço para elas, e basicamente esmagam a própria ideia de ter desejos próprios como uma prioridade. Isso não é uma receita para uma psique saudável. Um centro de apoio das mulheres em Fort Garry(12) aponta que a falta de autocuidado pode levar as mulheres a se "se sentirem infelizes, terem baixa auto-estima e sentirem ressentimento", nenhum dos quais são produtos de um eu bem resolvido e feliz.
É profundamente injusto dizer que só as mulheres satisfeitas e capacitadas podem ser feministas fazendo mudanças: as pessoas danificadas, irritadas e desprotegidas entre nós são vozes altas e cruciais, e a ideia de excluir qualquer pessoa é improdutiva. Mas também não é justo esperar que você saia e grite por outras mulheres em protestos, escreva editoriais, ou até mesmo entre em discussões com esse tio machista no Natal, quando você não está cuidando de si mesma no processo.

Se você é uma feminista militante ou hasteia sua bandeira feminista apenas em grupos fechados, é importante - na verdade, é o cerne do movimento - que você se valorize, tire tempo pra si e nas palavras de Psych Central , "escute seu corpo e faça o que quiser sem resistência"(13). Resistir ao patriarcado é bastante difícil; Fazê-lo, enquanto resistir às suas próprias necessidades torna ainda mais difícil. Como a poeta feminista Adrienne Rich observou: "Deve haver aquelas entre os quais podemos sentar e chorar e ainda ser contadas como guerreiras"(14).

SAÚDE EMOCIONAL É SAÚDE REAL

A noção de dor emocional, preocupação, trabalho e cansaço muitas vezes não é validada nas sociedades modernas, para qualquer gênero. Dr. Leon Seltzer, escrevendo para Psychology Today(15), tem algumas observações penetrantes sobre por que o desconforto emocional é tantas vezes conscientemente reprimido. "As tendências de negação, abstinência e auto-isolamento são comuns em reação à dor emocional profundamente sentida", ele escreve, e observa que revelar nosso cansaço emocional a outros é muitas vezes evitado pelo "medo de que expô-lo nos faria parecer fracos e, de fato, nos fazem sentir fracos e impotentes em relação a nós mesmos. " E, ele acrescenta, há um viés de gênero: enquanto os homens não falam sobre emoções por medo de danos à masculinidade percebida, para as mulheres, "revelar sua angústia emocional pode levá-las a serem chamadas de fracas (particularmente por seus companheiros) - ou, mais comumente," muito sensíveis".

Em outras palavras, estar em uma posição em que você precisa praticar autocuidado é visto como uma fraqueza ou vulnerabilidade, em vez do que é: uma parte natural da condição humana, especialmente para as mulheres. Às vezes pode ser complicado falar sobre diferenças científicas de gênero no contexto do feminismo, mas há evidência substantiva de que há um pouco de diferença em como as mulheres e os homens processam suas próprias emoções(16). Enquanto a leitura das emoções dos outros parece ser algo que as mulheres são educadas a fazer, parece haver uma base biológica para a idéia de que as mulheres reagem mais mal a estímulos emocionais negativos como vergonha, constrangimento ou rejeição. Em outras palavras, os impactos negativos das emoções são um assunto sério para as mulheres, e um muito real. Cuidar de nós mesmos não é uma questão de "fraqueza" ou "sensibilidade": é a realidade de estar no mundo. (NOTA: esta tradutora não concorda com essas afirmações)

A DOR FEMININA É VISTA COMO “FRESCURA”

Se passarmos da dor emocional para a dor física, outra coisa que exige enorme autocuidado, descobrimos que essa dor das mulheres também é invalidada. Autocuidado afinal, não é apenas para emoções; para muitas mulheres, é uma questão de manter-se à tona e não afundar. Há evidências de que a dor crônica é particularmente subdiagnosticada e não tratada nas mulheres, porque é vista como "exagerada"(17).

As percepções das mulheres sobre sua própria saúde e dor, mesmo a própria realidade física de sua agonia, são regularmente descartadas ou não levadas a sério; um artigo no The Atlantic em 2015(18), no qual a esposa do autor foi levada ao pronto socorro por causa de uma dor terrível resultante uma torção ovariana e não atendida adequadamente, levou ao compartilhamento de uma série de histórias de outras mulheres ao redor do mundo sobre experiências semelhantes. Um estudo realizado em 2016(19) descobriu que mulheres e homens que apresentavam o mesmo nível de dor foram atendidos em tempos radicalmente diferentes nos pronto socorros: homens em 49 minutos, mulheres em 65. Nesse contexto, observar e sentir a sua dor e tomar tempo lidando com isso é um ato extremamente feminista.

AUTOCUIDADO É A MANIFESTAÇÃO DE UMA IDENTIDADE INDEPENDENTE

Se você já está no feminismo há um bom tempo, você já ouviu a famosa definição "feminismo: a noção radical de que as mulheres são pessoas"(20), que apareceu pela primeira vez em 1986. A chave para o autocuidado é a noção de si, você sozinha: não você como uma irmã, uma esposa, uma namorada, uma companheira, uma amiga de apoio, mas você como seu eu puro e feminino. Cuidar desse eu primeiro, desprovido de contexto, sem desculpas, no atendimento profundo de suas necessidades e desejos, é um reconhecimento de sua importância e totalidade, de você como uma pessoa com peso no mundo, ao invés de um mecanismo definido por outros.

Isso não quer dizer que um bom autocuidado não possa existir num contexto em que você tenha relacionamentos bons, saudáveis ​​e igualitários com os outros. Uma feminista não é, por definição, uma ilha, e uma boa parte do autocuidado pode, de fato, ser "nutrir a sua vida social", como recomendado pela MIND(21), entidade sem fins lucrativos britânica de saúde mental . Mas relaxar, dar um passeio, chamar um amigo, assistir a porcaria na TV, e geralmente fazer algo para nutrir a si mesma de vez em quando é prova positiva de que você possui valor e que suas necessidades são valiosas.

LINK ORIGINAL: https://www.bustle.com/articles/200074-why-self-care-is-an-important-feminist-act

NOTAS:

(1) https://www.bustle.com/articles/194431-15-little-ways-to-practice-self-care-and-improve-your-mood
(2) https://www.psychologytoday.com/blog/everybody-marries-the-wrong-person/201006/self-care-in-toxic-world
(3) https://www.bustle.com/articles/129176-10-super-practical-ways-to-incorporate-more-self-care-into-your-daily-routine
(4) https://www.bustle.com/articles/120684-7-things-feminists-of-color-want-white-feminists-to-know
(5) http://everydayfeminism.com/2016/04/self-care-for-woke-folks/
(6) https://bitchmedia.org/article/audre-lorde-thought-self-care-act-political-warfare
(7) http://www.womenintheancientworld.com/whatathenianmensaid.htm
(08) https://en.wikipedia.org/wiki/Coverture
(9) https://www.theguardian.com/world/2015/nov/08/women-gender-roles-sexism-emotional-labor-feminism
(10) (...) Women have been seen as the nurturers rather than the nurtured”
(11) http://www.huffingtonpost.com/david-a-schwartz/emotional-labor_b_1686102.html
(12) http://www.fgwrc.ca/uploads/ck/files/Resources/Factsheets/FactSheetSelfCare.pdf
(13) http://psychcentral.com/blog/archives/2014/01/11/dont-forget-yourself-the-importance-of-self-care/
(14) https://hammeringshield.wordpress.com/2013/04/23/1074/
(15) https://www.psychologytoday.com/blog/evolution-the-self/201109/why-we-hide-emotional-pain
(16) https://www.psychologytoday.com/blog/sexual-personalities/201504/are-women-more-emotional-men
(17) http://abcnews.go.com/Health/PainNews/women-chronic-pain/story?id=15598143
(18) http://www.theatlantic.com/health/archive/2015/10/emergency-room-wait-times-sexism/410515/
(19) http://www.independent.co.uk/life-style/health-and-families/health-news/how-sexist-stereotypes-mean-doctors-ignore-womens-pain-a7157931.html
(20) http://www.beverlymcphail.com/feminismradicalnotion.html
(21) http://www.mind.org.uk/information-support/types-of-mental-health-problems/mental-health-problems-introduction/self-care/#.WFE_qhQvhuY

Willow

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