Você é ou já foi uma TERF? - coletiva Raiz

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Você é ou já foi uma TERF? - coletiva Raiz

Mensagem  gatos de satanás em Qua Dez 27, 2017 9:50 pm

http://www.newstatesman.com/politics/2015/02/are-you-now-or-have-you-ever-been-terf

Tradução livre por membras da Coletiva e com colaboração de mulheres da GARRa Feminista.
http://www.newstatesman.com/…/are-you-now-or-have-you-ever-…
Você é ou já foi uma TERF?
No fim de semana uma carta foi publicada no Observer, assinada por 130 pessoas que chamaram para debate aberto nas universidades, e criticaram o silenciamento ou "no platforming"* de pessoas cujos pontos de vista são considerados transfóbicos ou "whorephobics"*.
Dois signatários de alto perfil, Mary Beard e Peter Tatchell, foram imediatamente inundados com abusos e ameaças. Ambos acabaram por fazer declarações (Beard em seu blog http://goo.gl/ITZmg2, e Tatchell para Pink News http://goo.gl/3wlvw9) em que reiteraram seu apoio ao princípio de liberdade de expressão, mas tiveram cuidado de se distanciar das "TERFs" (feministas radicais trans-exclusionárias) que são os principais alvos das táticas que a carta criticava. "Não me confunda com essas pessoas", era a mensagem. "Eu defendo o direito delas de expressarem suas opiniões, mas eu acho essas opiniões tão repulsivas quanto vocês".
Lendo estas declarações, não pude deixar de pensar sobre o fim do romance de George Orwell, 1984, onde Winston diz para seus torturadores para fazerem isso à sua amada Julia, não a ele. É covarde, mas como um leitor você entende; você reconhece que na posição dele você provavelmente faria o mesmo. Nesse contexto, é um sinal da efetividade da tática McCarthy, desenvolvida por alguns transativistas. No Twitter há uma lista negra chamada de "blockbot", que inclui o nome dos usuários do Twitter que tem sido denunciados por twittar algo que alguém considera suspeito, junto com as razões para a sua inclusão na lista[1]. Qualquer um pode inspecionar a lista se quiserem saber quem são as TERFs, e não há nada que os impeça de repassar essa informação. Se você trabalha na academia, como Mary Beard, ou se você é um ativista LGBT veterano como Peter Tatchell, você realmente não quer estar nessa lista. Os dois foram vítimas de uma outra clássica tática McCarthy, culpa por associação. E eles responderam tentando dissociar-se, não só das TERFs que foram "no-platformed", mas também de qualquer TERF que possa estar escondida entre os signatários da carta.
Porque essas táticas tem sido eficazes, o conhecimento geral do que as tão-chamadas TERFs realmente acreditam é limitado ou não existente. Que sua posição é equivocada e moralmente repugnante é praticamente um dado adquirido: mas se questionado sobre o que é realmente, no entanto, quase ninguém poderia dar uma resposta baseada em declarações das próprias TERFs. O que se repete em público é que as TERFs são simplesmente fanáticas, atacando uma pequena minoria oprimida por puro medo irracional e ódio. Elas são acusadas de negar o direito das pessoas trans de existir, e de incitar a violência contra elas.
Se isso fosse verdade, a no-platforming seria justificada. Mas, com muito poucas exceções, não é verdade. Feministas de todo o espectro político apoiam o direito das pessoas trans não serem discriminadas no trabalho, vítimas de perseguição ou submetidas a agressão física e sexual. Sobre esse último ponto, há uma particularmente clara intersecção entre as pautas feministas e trans. As feministas radicais têm estado na vanguarda das campanhas contra a violência masculina e exigindo justiça para suas vítimas: ataques a pessoas trans, esmagadoramente perpetrados por homens, são vistos como parte do mesmo problema. Não há absolutamente nenhuma dúvida sobre se tais ataques devem ser condenados: eles devem ser e são.
Então, o que leva as pessoas a serem rotuladas TERFs não é sua oposição aos direitos fundamentais com os quais a maioria das pessoas trans se importa. Pelo contrário, é uma forma de dissidência política: você é rotulada de TERF se questionar ou criticar a ideologia bizarra que atualmente é promovida por alguns transativistas. Enfatizo a palavra "alguns" aqui, porque os ativistas em questão são assíduos e influentes, mas certamente não falam por toda a comunidade trans: seus críticos incluem pessoas que são trans também. Se discordar de seus pontos de vista extremos faz de você uma TERF, então, francamente, quase todo mundo é uma TERF.
O cerne da ideologia à qual estou me referindo é a afirmação de que "mulheres trans são mulheres" (ouvimos muito menos de/sobre homens trans). O que essa afirmação significa exatamente depende se a pessoa está usando a palavra "mulheres" para se referir a uma categoria social ou biológica. No primeiro caso, há uma discussão a ser feita (embora as pessoas possam discordar razoavelmente em suas conclusões), mas no segundo caso a afirmação é claramente falsa. Mulheres trans não são, por definição, mulheres biológicas. No entanto, na versão mais extrema dessa ideologia, não é possível dizer isso sem ser rotulada como uma TERF.
Um argumento comum para afirmar que mulheres trans são mulheres é que, embora elas sejam anatomicamente do sexo masculino, seus cérebros são do sexo feminino, e é o sexo do cérebro que determina a identidade de gênero de alguém. Este ponto de vista tem apoio entre alguns cientistas, mas outros o negam: não há, no presente, consenso entre especialistas. Será que querer debater argumentos faz de você um propagador fanático de discurso de ódio?
Outros argumentos defendidos por alguns transativistas são totalmente desprovidos de embasamento científico, já que negam a existência de dimorfismo sexual humano. Alguns argumentos trans nesse ponto são uma reminiscência de idéias criacionistas sobre evolução, segundo eles a idéia da diferença sexual binária é apenas uma teoria, imposta por razões ideológicas. Um artigo atualmente circulando online[2] não apenas aponta que há pessoas intersexo (que todos podemos concordar que existem, embora isso não refute o princípio básico de dimorfismo), ele também afirma que os indivíduos que tem SOP (síndrome do ovário policístico) são "realmente" intersexo. Se assim fosse, certamente aumentaria o número de pessoas "não binárias", já que é estimado que pelo menos 5% das mulheres (algumas estimativas apontam para próximo de 20%) tem SOP. Mas ter SOP não significa que você não é do sexo feminino.
Na prática, todo mundo sabe que as mulheres trans não são idênticas às mulheres, mas se você não quer ser chamada de TERF você deve negar as diferenças tanto quanto possível. Para as feministas isso se tornou um problema em particular: qualquer discussão de experiências que não são compartilhadas por mulheres trans, porque elas não nasceram com corpos femininos, é suscetível de ser denunciada como "trans-exclusionária". Essa foi a razão pela qual um colégio feminino dos EUA anunciou recentemente que iria descontinuar a sua apresentação anual de Monólogos da Vagina[3]: é exclusionário falar sobre vaginas quando algumas mulheres não têm uma. No ano passado, uma transativista no Twitter[4] denunciou campanhas feministas contra a mutilação genital feminina por ser "cissexista". As discussões sobre menstruação, gravidez e direito ao aborto[5] são todas regularmente interrompidas pela mesma queixa.
Outra coisa que devemos negar agora é também as diferenças que existem entre mulheres trans auto-identificadas. A categoria tem sido ampliada ao longo do tempo para abranger biologicamente mais indivíduos do sexo masculino que não alteraram seus corpos, e em alguns casos não vivem permanentemente como mulheres, mas alternam entre identidades masculina e feminina. Sua condição de "mulheridade" é baseada em uma combinação de declarações performativas de que são mulheres e em características superficiais de demarcação de gênero, como os nomes que usam e as roupas que vestem. No entanto, eles invocam o princípio de que "mulheres trans são mulheres": se você se identifica como mulher então você é uma mulher, e deve ser tratada como tal pelos outros. Em alguns círculos é considerado transfóbico que mulheres questionem a presença de pessoas que visivelmente possuem órgãos sexuais masculinos em espaços como vestiários femininos, ou que mulheres lésbicas se recusem a reconhecer essas pessoas como potenciais parceiras sexuais (uma resistência que algumas vezes é chamada de teto de algodão*, uma frase que está lotada de misoginia e entitlement* masculino). Não são apenas feministas radicais que acham isso problemático: algumas mulheres trans também acham. É isso apenas fanatismo irracional?
Durante o debate sobre a carta no Observer, um homem que tinha finalmente compreendido do que se tratava a disputa Trans vs TERFs twittou (parafraseando para a sua própria proteção): "Então, você está dizendo que temos que fingir acreditar em mentiras para sermos agradáveis. Como dizer que eu acho que gatos podem voar". Para evitar ofender um grupo minoritário - ou para evitar a perseguição dos seus membros mais extremos e influentes - é como se nós todos concordássemos em viver em um mundo de fantasia, onde a realidade é o que quer que certas pessoas digam que é. Meu pênis é do sexo feminino. É excludente que as feministas falem sobre corpos femininos. Os gatos podem voar. Ignorância é conhecimento.
TERF não é alguém que contesta o direito das pessoas trans de existir. O que ela contesta é o direito de um pequeno subconjunto de extremistas trans imporem sua definição de realidade e sua agenda política para todo mundo. Uma TERF é alguém preparada para dizer que o imperador não está usando roupas. Embora eu entenda seus medos, me perturba que tenhamos chegado ao ponto onde pessoas como Mary Beard e Peter Tatchell se sintam obrigados a jogar as TERFs aos lobos ao invés de se oporem ao Imperador e sua Corte.
Links relacionados:
[1]http://www.vice.com/…/whats-the-block-blot-martin-robbins-7…
[2]http://disruptingdinnerparties.com/…/take-the-red-pill-the…/
[3]http://jezebel.com/mount-holyoke-cancels-the-vagina-monolog…
[4]http://elegantgatheringofwhitesnows.com/?p=2069
[5]http://www.thenation.com/…/178…/feminisms-toxic-twitter-wars
Tradução/explicação:
*"No Platforming: é um posicionamento no qual grupos anti fascistas se recusam a permitir fascistas uma oportunidade para agir como partidos políticos normais, que, por vezes, inclui fisicamente negar a eles a liberdade de operar"
*Vadiafóbica (em tradução livre)
*Teto de Algodão: "Cotton Ceiling - ou "Teto de Algodão" - é o termo cunhado por transativistas para referirem-se à "barreira" que as trans encontram ao tentarem se relacionar sexualmente com lésbicas. Essa barreira nada mais é do que o que chamamos de consentimento.
Esse termo faz referência a um outro - "Teto de Vidro" - cunhado por feministas da segunda onda para identificar e combater as dificuldades encontradas por mulheres para ascender a posições de poder e autoridade no mercado de trabalho.
Enquanto o conceito original, Teto de Vidro, busca evidenciar e esclarecer uma das formas pelas quais a mulher é oprimida e mantida fora do poder econômica e socialmente, ainda que esteja inserida no mercado de trabalho, o segundo apropria-se do primeiro para reclamar o acesso a sexo com lésbicas.Como se o acesso a sexo fosse um direito e a negativa desse acesso - o não consentimento da lésbica ao sexo quando inclua um pênis - uma forma de opressão (transfobia)."http://pt.dicionariafeminista.wikia.com/wiki/Cotton-Ceiling
*Entitlement: "falso merecimento; um sentimento ou uma crença que se é merecedor de alguma coisa ou alguém"
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